Digg: Jogador me apontando revólver. Empurrando Raí, para escapar de seu abraço, na volta olímpica do São Paulo. E rolando as escadas, brigando com o técnico do Corinthians. A ‘pacífica’ final do Campeonato Paulista de 1991…, de August 12, 2017 at 12:11PM



Jogador me apontando revólver. Empurrando Raí, para escapar de seu abraço, na volta olímpica do São Paulo. E rolando as escadas, brigando com o técnico do Corinthians. A ‘pacífica’ final do Campeonato Paulista de 1991…
“Vou levar você amanhã para o cantão.”

Falou pela oitava vez.

“Ir para o cantão” era sinônimo.

Significava, ‘vou te cobrir de porrada’.

Na nona, resolveu pegar na minha camiseta.

Usar como base uma mão e me socar com a outra.

Faria grande estrago.

Ele era forte, peso pesado.

Estava raivoso.

Seus olhos estavam vermelhos de ódio.

Os dentes à mostra, como um urso assassino.

A expressão era da mais aguda raiva.

Perfeito para uma encarada no UFC.

Sabia de sua fama de espancador de jornalistas.

Precisava de me defender.

Estávamos em pleno gramado do Morumbi lotado.

106.102 testemunhas, para ser exato.

Havia acabado a decisão do Campeonato Paulista.

E o técnico do Corinthians queria me espancar.

Ele preparara o soco de direita.

Podia ser muito forte, mas decidi sobreviver.

Quando preparou o direto, aproveitei minha envergadura.

Era maior do que ele.

Segurei nos seus dois pulsos.

O treinador não esperava essa reação desesperada.

Tentava se desvencilhar, como um rinoceronte selvagem.

Não iria largar os pulsos, de jeito algum.

Foi quando começamos um bailado improvisado, tosco.

Ele tentando se soltar e eu o segurando.

A melhor comparação está no desenho Fantasia, de Walt Disney.

Feito em 1940, foi revolucionário.

Marcou a animação mundial.

Genial fusão entre desenho e música erudita.

Era dividido em vários segmentos.

Um deles é ‘Dança das Horas’.

Disney ironizava o balé clássico.

E colocava animais dançando.

Eu e o treinador éramos idênticos a dois hipopótamos bailando.

Não o largava, mas andava para trás.

A diferença de peso estava interferindo no clinch.

Sem perceber, íamos para não deveríamos ir.

Ao túnel corintiano.

Eu de costas.

Na direção à escada que dava acesso aos vestiários.

Quando o meu pé direito pisou no vazio…

Tropecei.

E o puxei com toda a força.

Rolamos os degraus, qual duas bolas de boliche.

Caímos em cima do repórter mais esperto das rádios brasileiras.

O saudoso Ligeirinho, que infelizmente morreu este ano.

Magro, baixinho.

Escapou, por sorte, de ser esmagado por nós dois.

Quando percebi, estávamos os três estatelados.

Caídos na escada do túnel do vestiário do Corinthians.

Como eu havia chegado àquela situação surreal?

Àquela cena bizarra?

Naquele inesquecível domingo, dia 15 de dezembro de 1991…

Esta história começou quando Cilinho assumiu o Corinthians. Marlene Matheus era a presidente de fachada. Quem mandava e desmandava era o seu marido, Vicente. Ela ganhou o cargo porque, por estatuto, ele não poderia assumir.

Otacílio Pires de Camargo marcou o futebol pela estratégia ofensiva, descoberta de talentos. E ter reformulado o São Paulo. Apostado na geração que foi batizada de “Menudos’, nome do grupo porto-riquenho que fazia sucesso naquele ano, 1987. Tinha Müller, Silas, Sidney, Nelsinho, Márcio Araújo. Aliás, Cilinho colocou Falcão, o então ‘Rei de Roma’, no banco, para que jogasse Márcio Araújo.

Ele não admitia que seu trabalho fosse contestado.

Por isso, recusou a Seleção Brasileira.

Queria ter todo o poder ou então não aceitaria.

Disse não.

Deixou o caminho livre a Sebastião Lazaroni.

Cilinho chegou ao Corinthians e já bateu de frente com o grupo, comandado por Neto. O meia, com o aval de Matheus, era o dono do clube. Havia sido o grande responsável pela primeira conquista do Campeonato Brasileiro, em 1990. Em 1987, Cilinho havia recomendado que o São Paulo devolvesse Neto ao Corinthians, que o havia emprestado. O meia nunca o perdoou pelo desprezo no Morumbi.

E a situação havia se revertido. Neto fez questão de mostrar quem é que mandava em 1991 e disse que Cilinho só trabalharia no Parque São Jorge porque ele havia autorizado. Ganhou o cargo, porque Carlos Alberto Silva havia abandonado o clube, depois de apenas três amistosos, seduzido por uma proposta do Porto.

Eu cobrindo o Corinthians desde o título brasileiro de 1990, que merece ser muito bem contado, um dia. Mas agora vale lembrar o furacão que foi a passagem de Cilinho. O clima entre o técnico e Neto não era bom. E pioraria muito. No dia 13 de outubro de 1991, o meia não se conformou por ter sido expulso no clássico contra o Palmeiras. E acertou uma cusparada no rosto do árbitro José Aparecido de Oliveira. Tomou quatro meses de suspensão. Estava fora do restante do Paulista, que era um campeonato fundamental na época.

Neto ficou irritadíssimo porque Cilinho não o protegeu publicamente. A base do time era formada pela equipe campeã brasileira. E que devia muito ao camisa dez e capitão do time. E o meia cobrava fidelidade. O treinador conseguiu sabotar o próprio ambiente de trabalho. Seu silêncio já demonstrava o quanto censurava a atitude de Neto. Arrumou o mais poderoso dos inimigos no Parque São Jorge.

Eu acompanhava o clima cada vez pior no clube. Mas em campo, a equipe, mesmo inconstante, conseguiu vencer o grupo Verde. E enfrentaria na final o São Paulo. O time de Telê Santana foi salvo do vexame por uma manobra maquiavélica do então presidente da FPF, José Eduardo Farah. O clube havia ficado em 15º na classificação geral de 1990. Iria disputar Segunda Divisão paulista.

Mas Farah resolveu criar o grupo Verde, com os 14 primeiros de 90 e o grupo Amarelo, formado pelo 15º até o 28º. E decidiu que haveria o cruzamento. O que anularia a vexame. Os campeões dos dois grupos se enfrentariam. Manipulação vergonhosa para que não ficasse caracterizado o rebaixamento são paulino.

Jogando só contra times pequenos, o time de Telê chegou fácil às finais. Iria enfrentar o Corinthians, que terminou apenas um ponto à frente do Palmeiras.

O grande jogador tricolor se chamava Raí.

As finais seriam em duas partidas.

Acompanhei toda preparação corintiana. E seguindo o ônibus do clube, com meu Chevette preto, ia para a pequena Santa Isabel, cidade onde Cilinho gostava de levar seus atletas, tirando o time da pressão do Parque São Jorge. Via que seus métodos usados com os Menudos, quatro anos anos, apenas irritavam os jogadores. As embaixadas forçadas em bolas de tênis. As simulações de jogo, sem a bola. As caixas de Coca Cola como prêmio para o time que vencesse o rachão. A rejeição era nítida. Os jogadores seguiam fiéis a Neto que, suspenso, não podia atuar. Mas conversava diariamente com os líderes do time, Ronaldo, Márcio, Marcelo, Wilson Mano.

Cilinho era detestado pelos atletas.

E fingia não saber disso.

Na verdade, esperava ser campeão paulista.

E fazer uma reformulação no elenco.

Veio o primeiro jogo da decisão. 3 a 0 para o São Paulo. Três gols de Raí. Todos marcados no primeiro tempo. Fiquei surpreso com a liberdade que o meia teve para atuar. Márcio era um dos melhores marcadores no país. Ele atuou apenas 45 minutos. Foi substituído por Tupãzinho, no equilibrado segundo tempo.

Decidi chegar o mais cedo possível no Parque São Jorge, na segunda-feira, após o jogo. Naquela época, tudo era escancarado no Corinthians. Fui até o departamento médico. Vejo uma reunião e muita gente irritada. Ninguém me percebe. E ouço nitidamente. “O Márcio estava com contratura. Eu avisei que não poderia jogar. Falei com o Cilinho. Era um risco grande demais. Ninguém iria convencer o jogador a não disputar a final. Caberia ao técnico dizer não.”

Me afasto.

Depois checo com duas pessoas da reunião.

O volante jogou mesmo machucado.

Tenho a matéria. E a escrevo. Cito a irresponsabilidade de Márcio. E a incompetência de Cilinho. Ele havia determinado uma marcação individual ao melhor jogador do São Paulo. Feita por um jogador com contratura. Não percebeu a inutilidade do jogador por 45 minutos. Por isso, os três gols de Raí.

Na terça-feira, o JT escancara a amadora situação.

Chego cedo, outra vez ao treinamento. Márcio me chama no estacionamento. Diz que tinha ‘uma coisa’ que precisava mostrar para mim. Estava no carro. Pensei que fosse um exame, algo assim.

Pega no porta-luvas um revólver.

“Isso aqui é para repórter filho da puta.”

“Que interessante, me diz a marca, Márcio…”

Ele não responde.

Liga o carro e vai embora cantando pneu.

Machucado, estava vetado para o segundo e último jogo.

Márcio me deu outra capa de jornal com o revólver.

Mas foi homem para confirmar o episódio.

Poderia desmentir, já que não houve testemunhas.

Não fez como muitos jogadores de hoje fariam.

O clima não poderia ser pior para mim.

Jogadores e Cilinho mal me olhando na cara.

Chega o domingo, o jogo final.

E o Corinthians, com todos seus jogadores saudáveis, faz uma partida equilibrada.

Ao final, 0 a 0.

Mesmo cobrindo o time que perdeu o título, quero aproveitar Raí. Naquela época, todos os repórteres, inclusive de jornal, entravam no gramado ao final das partidas. Tento perguntar se a conquista se deveu à escalação de Márcio, que o marcou com contratura.

Mas Raí está histérico.

Havia acabado de ser campeão. Era o grande jogador do time de Telê Santana. Artilheiro do Paulista, graças àqueles três gols da primeira partida da final. Promessa para a Copa de 1994.

Tento chegar perto dele. Mas ele já estava correndo. Seu braço esquerdo, abraça a Müller. Tenho de correr também. Como tenho 1m89 e estava de camiseta clara, ele nem olha. E me abraça. Deve ter imaginado que fosse um reserva qualquer. Em um décimo de segundo, vi a minha carreira indo para o ralo. Eu dando a volta olímpica abraçado com o Raí e Müller, comemorando o título do São Paulo. Uma insanidade.

Empurro Raí.

Ele se assusta quando vê o erro que cometeu.

E desisto da pergunta.

Me dirijo ao vestiário do Corinthians.

Quando encontro Cilinho me esperando.

E vivo a cena patética já descrita no início do texto.

Depois que quase esmagamos Ligeirinho, o caos.

Chegam os repórteres que cobriam o Corinthians.

Cilinho se levanta e entra rápido no vestiário.

Fico paralisado.

Para onde vou?

Sou cercado de microfones.

“Cosme, você vai para a delegacia fazer B.O.?”, me pergunta, já sugerindo, o renascido Ligeirinho. Olho para ele e para os meus outros colegas com seus microfones. E penso. Se for, perco a cobertura do vestiário. Compro briga com o Corinthians. Deixo de cobrir o clube mais popular de São Paulo. Fico marcado. Perco manchetes.

“Não vou, não. O que eu quero mostrar o quanto que esse treinador é ultrapassado. Não percebeu que um jogador fundamental jogou a final do Paulista com contratura. E deu o título ao São Paulo. Toda vez que ele perde um jogo importante, bate em jornalista para desviar o foco. Dessa vez foi diferente. Ele perdeu como sempre, mas houve empate nesta briga que arrumou. Caímos os dois.”

Os seguranças corintianos não me deixam entrar no vestiário. O mais forte deles, que tinha braços que pareciam dois troncos, de apelido Tim Maia, me pergunta. “Você bateu no professor Cilinho?” Respondo que não, “ninguém bateu em ninguém”. “Ah, bom. Sorte sua. Se não, eu iria te encher de porrada.” Ele eu não conseguiria segurar. Seria um massacre. Foi uma das melhores respostas que dei na vida.

Depois da perda de título, Cilinho foi demitido.

Nunca mais trabalhou em time grande na sua carreira.

Em novembro de 2007, voltou ao Corinthians. Mas o plano era comandar as divisões de base. Quem estava cobrindo o clube? Sim… Me preparei para novo embate. Só que esperava o homenzarrão de 1991. Pensei no que tinha aprendido de jiu jitsu e muay thai. E nos anos assistindo MMA.

E muito mais pesado, o combate seria equilibrado.

Já imaginava nós dois quebrando a sala de imprensa.

Eu não iria apanhar, de jeito algum.

Chego para a coletiva com os punhos fechados.

Só que, 16 anos depois, chega um senhor de 68 anos.

Cilinho perdera metade do peso.

Andava e falava devagar, baixo.

Senti vergonha de ter me preparado para a briga.

Espero o fim da coletiva.

Fiz questão de conversar sozinho com ele.

“Cilinho, lembra de mim?”

Ele me olha, sereno, tranquilo.

“Lógico que lembro.

Mas já passou.

Futebol é apaixonante.

A vida sempre segue.”

E me deu um abraço.

Lembrei do meu avô.

Cilinho só teve energia para trabalhar quatro meses.

Foi mandado embora da problemática base corintiana.

Ele não sabe.

Mas aquela ‘dança dos hipopótamos’ me marcou.

Para a vida toda.

Não pelo trauma psicológico.

Hoje, dou risada quando lembro.

Mas fisicamente.

Quando caímos sobre Ligeirinho…

Os ligamentos do meu dedo anular esquerdo se romperam.

Ele não dobra da metade para cima.

Uma lenda chinesa diz que os dedos representam a família. Os polegares, os pais. Os indicadores, os irmãos. O dedo médio, você mesmo. Os dedinhos, os filhos. E os anulares, a companheira. O esquerdo ganha a aliança porque é do lado que está o coração.

Colocar ou tirar a minha aliança sempre doeu.

Graças a Cilinho.

E à nossa ‘Dança dos Hipopótamos’…

http://r7.com/X7Ke

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August 12, 2017 at 12:11PM
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